Um dia de praia

Quando meus pais estavam jantando acabaram deixando escapar que iremos para a praia amanhã. Eita! Preciso me arrumar. Ir à praia não é tão simples assim, é necessário que ocorra uma preparação previa, já que lá, apesar de usarmos pouca roupa, são roupas que praticamente são usadas apenas naquele local. Preciso escolher um biquíni, tenho vários, mas nenhum novo, o azul foi o que usei da última vez, logo ele está completamente descartado, vai que alguém que me viu com ele na praia. Tenho alguns maiôs, eu adoro maiôs, me dá um ar clássico e não sinto tanta vergonha quanto vestir um biquíni, ainda mais que eu estou um pouco acima do peso, porém, não é por isso que quero usá-los, é uma preferência pessoal mesmo. Sou uma garota de 14 anos com todas as neuras que uma garota dessa idade tem (e tem todo o direito de ter). Irei com o maiô preto, como sou bem branquinha, o contraste com minha pele fica bonito, opa, o protetor solar, não me exponho ao sol sem isso, nem é frescura de minha parte, é necessidade.
Acordei com minha mãe me chamando, como não temos carro ainda teremos que encarar 100km de ônibus até chegar a bendita praia, ainda é começo de temporada e pode ser que não tenha tantas pessoas assim, acredito que teremos a sorte de ir sentados. Meu pai é um homem bonito, apesar da barriguinha de Chopp, acredito que a beleza de uma pessoa se faz com um conjunto de qualidades e não somente com o seu físico, claro, ainda há a possibilidade de eu o achar bonito simplesmente por ser meu pai. Minha mãe sim é uma gata, nem parede que tem 35 anos, ela vive dizendo que não é velha e que só é velha comparada a mim que ainda sou uma criança, odeio que me chamem de criança, afinal sou uma adolescente. Ainda mais que me chamam de criança para me proibir de fazer certas coisas e as coisas mesmo que eu não quero fazê-las dizem que já sou bastante crescida para encarar tais responsabilidades.
A ida à praia é bem tranquila, não levamos muita coisa, afinal estamos indo passar um dia de lazer e não se mudar pra lá, como sou filha única minha coisas cabem numa bolsinha qualquer, aquelas que sempre vendem na praia pelo dobro do preço da loja e a gente nunca tem coragem de ir na loja comprar antes de ir para a praia. Mas fazer o quê? Algumas compras só fazem sentido quando se tem uma necessidade imediata, como comprar um guarda chuva enquanto está chovendo. Finalmente chegamos a praia, ainda bem que não está tão cheia, quando está muito cheia tenho um pouco de vergonha de ficar com roupa de banho, mas é melhor do que ficar como os adultos, alguém pode me dizer o que um adulto faz na praia? Eles chegam e se sentam no bar, bebem o dia todo, não tomam banho, não brincam de bola e nem passeiam pela praia.
Vou dar uma volta, marquei com minha amiga, a doida não apareceu, melhor assim, hoje não estou pra papo. Engraçado como a praia dá uma paz na gente, será se o vazio que tem dentro da gente encontra o vazio da paisagem que vemos? Não sei, só sei que gosto. Vou me sentar um pouco aqui perto da água, esse som das ondas é muito bom, relaxante, encho a mão de areia e deixo que a onda venha em minha direção e vejo quanto de areia ainda sobra. Quando eu era criança pequena adorava fazer castelos de areia, me deu vontade de fazer isso agora, só que se eu fizer isso vão acabar rindo de mim. Por que será que quando crescemos nos enchemos de vergonha e deixamos de fazer o que temos vontade? As pessoas deveriam fazer as coisas que gosta, sem vergonha, desde claro, coisas que não prejudicassem ninguém.
Minha mãe me chamou para almoçar, eu gosto de peixe, só acho que ele não gosta de mim, são tantas espinhas pra catar. Mamãe comenta de como estou crescendo e logo arrumarei um namorado, papai finge que não ouve por ciúmes, tenho certeza que se eu fosse menino ele me incentivaria a namorar. Até sinto algo por um carinha lá da escola, mas não passa disso, prefiro os romances dos livros e filmes, ver ou ler alguém sofrer não é a mesma coisa de que sofrer, e até chega a ser didático, aprendemos com os erros de outrem. O sol estava bem quente, só que acabou chovendo, adoro chuva com praia, não me pergunte o porquê disso, apenas gosto, as gotas de água custam a criar poças, a areia é bem porosa e é legal ver a gota meio que desaparecer quando bate no chão.
O dia chegou ao fim e junto com ele toda a minha energia, praia cansa a gente, mas o mais importante é que a cabeça está mais leve e estou pronta para ir pra casa e dormi. O ônibus passa, consegui ficar sentada de novo, me debruço em cima do meu pai e da minha mãe, até cochilo, foi apenas mais um dia comum e divertido na praia...

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