Saudade de casa

            Eu sou uma entre muitas pessoas que muito cedo teve que abandonar a sua cidade em busca de mais oportunidades de estudo e de trabalho. Hoje, mesmo nas cidades do interior, nós temos a oportunidade de cursar uma faculdade, e as vezes até mesmo se empregar por lá após concluir o curso.

Antes não era assim, se você queria ter melhores condições de vida, você era praticamente obrigado a ir para uma cidade grande, quase sempre a capital do seu estado. Só assim pra se ter oportunidade de ascender financeiramente. O estudo, muitas vezes, é a única forma que uma pessoa pobre tem de ter sucesso na vida, sei que podemos ganhar dinheiro de outra forma (e sei que não se mede o sucesso de uma pessoa somente pelo valor de seu contracheques). Mas mesmo sem o estudo formal, com graduações e pós-graduações o conhecimento é essencial na vida de todos, aprender nunca é demais.

Desde pequeno eu tinha esse sonho, terminar o antigo segundo grau, hoje chamado de ensino médio, e ir para a capital estudar e pra lá mesmo me empregar. Minha família nunca foi rica, mas sempre me deu todas as condições para que eu realizasse esse sonho, e foi nesse sonho que eu me apaguei, até completar a idade que eu iria sair da minha cidade natal. Quando chegou o dia eu senti um misto de euforia e tristeza, a euforia por ter chegado o tão sonhado dia, tristeza por ter que deixar a família.

Confesso que eu já nem gostava mais tanto da minha cidade, meus pensamentos estavam na capital. Entre abraços, beijos e lagrimas eu me despedi. Quem nunca sentiu medo do desconhecido que atire a primeira pedra, até mesmo o nosso sonho quando é realizado faz com que se experimente sentimentos contraditórios. Sempre achei um pouco engraçado como o nosso coração e o nosso cérebro nunca concordam, parece que eles gostam é de discordar.

A vida na capital foi dura, mas isso não fez com que ela fosse menos interessante. Já reparam como universitário vive sem dinheiro, porém, não sai duma balada? Vivemos essa fase da vida sem saber que é a melhor fase de todas, o problema é que só sabemos disso depois que ela passa, a pessoa que está feliz nunca tem tempo pra pensar sobre a própria felicidade, só quem faz isso são os poetas e os compositores, mas na grande maioria das vezes eles são pessoas tristes. Ostra feliz não faz pérola, como diz o título de um livro do saudoso Rubem Alves.

Além de estudar, a capital abriu meus olhos pra outras coisas, os passeios eram melhores, havia cinema e outras atrações que as cidades do interior não tinham. Depois que nossos olhos veem belezas maiores, as menores parecem tão sem graça, dá até pra desconfiar que olho que se abre para as grandes belezas nunca mais consegue enxergar as belezas menores.

Minha graduação foi de apenas 4 anos, mas parece que foi de 10. Faculdade só passa rápido quando são os outros que estudam, na nossa vez as coisas se arrastam, demora séculos para passar. No terceiro ano do curso eu tive certeza que não voltaria mais para a minha cidade (jamais me acostumaria novamente), a capital era meu lugar. Porém, no último ano eu senti algo inesperado, as características que antes eu repudiava da minha cidade, pulsavam dentro de mim, e essa pulsação é bastante conhecida, ela tem o nome de saudade.

As belezas da capital não mais me encantavam, a rotina tem esse poder de fazer o belo parecer menos belo e o feio parecer menos feio. Todo mundo sabe que ninguém deseja aquilo que tem, só se deseja aquilo que lhe falta, eu tinha saudade do interior, das pessoas de lá, da família, de como o tempo parece que passa deliciosamente mais devagar. Algumas vezes, parece até que eu podia sentir a brisa do rio que banhava a minha cidade.

Quando a formatura chegou, eu ainda guardava os meus sentimentos em segredo, meu pai e minha mãe, acostumados a me terem por perto apenas nas férias e nos grandes feriados, tinham absoluta certeza que minha vida daria seguimento na capital. Eles comentavam com muito orgulho de como eu consegui me formar, sei que isso hoje é uma coisa muito comum, mas no tempo que lhes descrevo, ter um curso superior lhe dava a certeza do êxito financeiro.

Depois das festas, meus pais se preparavam pra ir embora (sem mim, claro), decidi que era hora de falar o que eu estava sentindo e do que eu tinha decidido fazer. Eles receberam a notícia da melhor maneira possível, quando as pessoas recebem notícias muito boas parece que elas não sorriem apenas com a boca, o rosto todo se transforma. E assim eu voltei, mas não voltei arrependido de ter saído de lá, foi na ausência que a minha pequenina cidade desabrochou dentro de mim.

 

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